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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Leque

Não é simplesmente ir embora, por mais que se queira, por um momento, que fosse apenas ir embora. Não se apaga a luz e tranca a porta de uma vida inteira pra colher outra nova em outro lugar. Se fosse assim seria fácil. Se não bom, pelo menos absolutamente cômodo. Mas de forma alguma é assim.
Os problemas que se sonha deixar pra trás, somam-se aos novos que se encontra por aqui, e bola de neve,sabe-se: uma hora vai estourar. 
Na verdade é um sonho burlesco achar que 'indo', tudo vai melhorar.
Diariamente o confronto no espelho mostra que já não sei mais quem sou. Me vejo repintada de novas formas, de todas as formas aqui. "-Mas dessa forma me deforma!". Cadê a imagem que reconhecia de mim?
As raízes tão fundas que fiz doem-me, secam e esturricam pois necessitam de mais. Precisam de mais daquilo que por tanto tempo me manteve em pé, e mantêm tanto quanto afasta. E o significado da palavra 'saudade' é ruminado em diversos sabores.
Mas, apesar de tudo, e de tanto mais que posso falar, o poder de escolha, o cuidar-se, o objeto, o desconhecido, a sensação única de ter a própria vida pra si. A beleza de aprender a sambar e sair da peleja sorrindo. Descobrir. Ter medo e parar de tremer. Carregar a própria história como impulso e não buraco. Lutar para ser detentora da própria história. Por essas e por outras, que foi apenas o primeiro passo. 
Carrego em mim e sou mais do que carregada pelo sentimento daqueles que me tem. Carrego abraços muito mais apertados e também a saudade, pra onde quer que eu vá, pois tudo já me faz falta sempre vai faltar um pedaço.

terça-feira, 29 de maio de 2012

  Como viver duas vidas?
  Estar em dois lugares, dividida,
  amando e odiando ao mesmo tempo
  Tem como não romper com a antiga intimidade e deixar que a nova floresça, dessa maneira vertiginosa com que ela brota?
  Vale a pena fazer isso?
  Por que mesmo que eu to indo embora?
  Mas quer saber, o melhor é esquecer!
  A saudade queima e consome
  Já não importa em qual lado eu vá pender
   a falta do outro já destrói
  Sair, fugir, mudar, sonhar, desistir, afogar
  não importa o nome que dê
  romper costurou os lados
  em você
  Peças que não encaixam
  outro idioma
  e ao meio
  você
  Os lados esticam esgarçados
  eu desespero e tento não desfiar
  desvio um pouco o caminho 
  reencontro o que antes era o rumo
  E pra onde vai me levar
  rumomes sossegam e falam que eu vá
  insone eu agarro 
  e abandonada me sinto abandonar
 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Malas prontas

  Fazer as malas. Foi impulsivo, de susto, ainda embalada pela noite passada, com sono de entontecer a mente. 
  O que eu queria colocar naquelas malas, nem de longe caberia. Então fui resignada, dobrando as roupas, junto com os sentimentos, esmagando-as naquele espaço pequeno que tanta coisa deveria levar. Tudo o que eu precisava na vida. Mas tantas coisas precisava levar e não podia.
  Fazer as malas. Um misto de necessidade preventiva, e revolta. Os objetos tornam-se obsoletos, tanto quanto essenciais. O que  sobrou do meu mundo de vinte anos de re-conhecimento? Vinte anos no mesmo lugar, tantas raízes... quando comecei a amadurecer, quando os frutos começaram quem sabe a despontar... enfim, todas essas coisas de fins e recomeços... fica pra outra hora.
  Fiz as malas disse tchau e parti.
  Foi simplesmente isso. Foi só adeus. Um obrigada pela atenção, mando notícias. Ligo quando chegar.
  Foi só isso e nada mais. Minha avó ficou no quarto porque as costas doíam, e minha mãe não saiu na rua pra dar tchau pelo sol. Os amigos na rodô, foi pelas inúmeras malas, não poderia carregá-las sozinhas. O último abraço, o último abraço em que reconheceria aquela intimidade... talvez a ficha tenha começado a cair nesse momento. Talvez não.
  




O que levar nas malas:

  • basicamente o que vai esquecer em cima da cama.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Primeiras Impressões




         Cheguei em São Carlos. Ok. Aquela rodoviária, exatamente igual a todas as outras rodoviárias. Poderia estar tanto em São Carlos, como em Itajubá, não perceberia a diferença. Um nó na garganta, e a preocupação de que o moço que me encontraria lá, não estivesse lá. Ele estava. No caminho até sua casa passei pelo centro da cidade a noite. Achei muito rápido, muitos carros, parecia uma avenida com o centro nas beiradas. Entrando no bairro dele, a paisagem mudou, ruas escuras, com aquelas casas de quintais imensos, bancos de madeira na frente das casas, muitas árvores. Me senti muito mais confortável naquele momento.
         Cheguei no meu quarto, amontoei as malas em um canto, sentei na cama, e vi que tremia. A percepção das mudanças acontecem na medida que mudam, e não da consciência que achamos que tomamos delas. Medo era pouco pro que eu sentia, desamparo explicaria melhor.
         No dia seguinte o trote, a apresentação. Aqueles treze cigarros que fumei compulsivamente na frente do auditório da apresentação, com aqueles que seriam meus colegas de sala, alguns prováveis amigos, alguns que eu não gostaria, outros que eu nem saberia o nome, pelos próximos quatro, quem sabe cinco anos. Foi engraçado as coisas que passaram pela minha cabeça. Todo mundo se olhando, curioso, apavorado, tímido, descolado. Depois o trote... ele vem e avassala com todos os seus receios, não porque te faz sentir segura, mas porque não te dá espaço para ter receio. Fui pintada, simulei que morria tomando tiros de uma metralhadora, outro carregou a pedra filosofal quilômetros, além do pedágio, no sol que eu não sabia, mas só São Carlos tem. O almoço barato e delicioso, aquelas figuras que depois eu nem reconheceria sem a tinta. Voltando desse pedágio me perdi umas três horas pelo bairro, encontrando uma sensação horrível de que não sabia cuidar de mim mesma.
         Assim foi minha primeira semana em São Carlos, permeada por dias áridos e de poucas expectativas, com noites apaixonantes, cheias de descobertas. Dias extensos, que nunca mais se acabavam. Que a cada momento fixavam em mim, uma nova impressão, a noção sem contornos do seria então meu mundo. Aprendi nessa primeira semana a amar e a odiar esse lugar. Amar suas esquinas, e desviar enojada de todas essas burocracias, essas mesquinhezes que rodeiam as instituições. Aqui a necessidade se prova com inúmeros documentos, ou com uma conversa simples com aqueles que já passaram pelo mesmo que você. E o que não me faltou foi esse auxílio, cada dia que passei antes de conseguir minha vaga na moradia, foi em uma casa diferente, em cada casa, senti o acolhimento, a ajuda, daqueles que também precisaram e assim como eu, a encontraram.
         Essas foram as primeiras imagens, que a ferro e fogo, São Carlos desenhou em mim. Esses são os primeiros desenhos que posso rascunhar do que espero um dia entender.